segunda-feira, 1 de junho de 2015

“A escola tradicional está colapsando”, entrevista com Noemi Paymal, antropóloga!







“Não podemos responsabilizar a nenhum dos professores ou ao sistema, por que a mudança se deu muito rápido, mais rápido do que a capacidade de lidar com o assunto”.


A nova geração de crianças inquietas que chegam aos colégios de todo o mundo necessita de uma escola nas antípodas da tradicional. Ahhh e o que é mesmo, uma instituição que não confunda crianças rápidas com hiperativas ou com déficit de atenção, que motive os estudantes, que não os aborreça, nem os disperse. Uma escola vital, “biointegral” com base nas técnicas de ensino nas emoções, sem descuidar o intelecto. Há grande disparidade, esse é o semear de Noemí Paymal, antropóloga francesa que a anos trabalha na América do Sul.
A especialista em educação alternativa e diretora do Centro de Pesquisa Pedagogia 3000 em La Paz, na Bolívia, assegura que existem ferramentas muito simples e efetivas para trabalhar com as criança do “terceiro milênio”. Fala de uma  pedagogia holística que entenda e atenda as necessidades das crianças e jóvens de hoje.

 Os docentes costumam dizer que não tem ferramentas para inclusão das crianças hiperativas. O que podem fazer?

As pesquisas demonstram que 80 porcento das crianças de agora mudaram sua maneira de aprender, seu nível afetivo, seu interesse emocional. Seu hemisfério direito é mais rápido, podem fazer várias coisas de uma só vez, são autodidatas e tem interesses múltiplos. Há muitas ferramentas hoje em dia, que direcionam o desenvolvimento de vários âmbitos do ser humano, desde o físico até o intuitivo, o emocional, o multicultural, o ecológico, o ético
Antes se direcionava somente ao intelectual e o cognitivo. E já sabemos que não funciona.

– Algum exemplo?

Por exemplo, podemos começar recuperando todos os níveis de desenvolvimento do corpo. Uma criança tem que se movimentar a cada 20 minutos em fase de ensino fundamental e se é menor tem que fazê-lo o tempo todo. Dizer a elas que não se movimentem é como pedir a uma planta que não cresça ou ao sol para ficar parado, é sua natureza e é para se ancorar o conhecimento com o movimento.

– Isso vale para todas as crianças?


Para 80 porcento das crianças de agora é assim. Não são hiperativas, mais sim tem necessidade de se movimentar, tem interesses múltiplos. Necessitam brincar quase todo o tempo até os 10 anos. A criança de hoje não é linear, é holistica, vê tudo de uma só vez. Se não usar o hemisfério direito, ele se atrofiará e depois será levado à uma sociedade intelectual como a nossa, que não esta equilibrada.

– Estas características são iguais em todo o mundo?

É igual nos 15 países que temos pesquisado. Como antropólogos estamos semeando uma mudança da humanidade em seu conjunto, a mudança é muito rápida. Tem-se dado nos últimos 40 anos, o que não é nada em relação a evolução da humanidade.

– Como as escolas têm se adaptado a esta mudança tão vertiginosa?

Não tem se adaptado. E não podemos resposabilizar a nenhum dos professores ou ao sistema, porque a mudança se deu muito rápido, mais rápido do que a capacidade de lidar com o assunto. Antes as mudanças eram lentas, havia leves diferenças entres as gerações.  Agora são tão velozes que as crianças ultrapassaram aos pais e aos professores. Ha de se reconhecer e atender a esta rapidez.

– O que a falta de adaptação pode gerar?


Pode gerar crianças passando mal, com altas taixas de suicídio em adolescentes e depressão infantil no mundo. Pode gerar professores também passando mal porque não tem ferramentas, porque em sua época não era assim. Pode gerar pais passando mal. Bem, sofre toda uma sociedade.

– Quais ferramentas pedagógicas podem ser utilizadas?

Ferramentas cognitivas e também ferramentas emocionais, biointeligentes o biolúdicas, as “intuitivas” e as ferramentas que trabalham na conexão mente-coração.

Claro que seguiremos ensinando com ferramentas cognitivas, porém lúdicas e com desafíos. Onde a criança faz seu próprio processo (projeto) até encontrar a solução. Um bom professor não deve dar a solução, tem que esperar que a criança a encontre. Outra ferramenta é a emocional. Sempre há de se trabalhar a autoestima, reconhecer seus sentimentos e os sentimentos do outro. Isso previne os problemas de violência. Há ferramentas biointeligentes ou biolúdicas com as quais se trabalham todos os aspectos do ser humano. Sem se concentrar tanto no intelectual e sem se importar com as notas. Estão também as ferramentas sensíveis (sencientes) e intuitivas, com as quais as crianças podem fazer jogos para sentir a energia. Apesar de inquietas, persistentes e por vezes teimosas, as crianças são muito sensíveis, o que soa servir de fachada para se proteger de uma soma de sensibilidades. Nas pesquisas que fizemos, 80 porcento dessas crianças tem hiperestesia, uma super ativação de todos os sentidos físicos. Se alguém grita, elas sentem o grito mais forte. Sua visão mais aguda. As ferramentas biointeligentes funcionam por si só (tecer, cozinhar, horta). Há também ferramentas que trabalham na conexão mente-corazón onde se reforça a força pessoal.

- Por qué se acredita que as crianças de hoje são como são?

A lógica é falar de maneiras mais estimulantes dos meios de comunicação, do bombardeio de informação desde o nascimento. Elas vêm tecnológicamente mais avançadas, porém também emocionalmente muito maduras, com uma percepção precoce e uma sensibilidade que não haviamos pensado até então. Acreditávamos que com a chegada do computador teriam uma visão individualizada, porém nascem com uma super sensibilidade, uma alta percepção, o que nos dá muita esperançaAs crianças são uma manifestação desta mudança massiva. E por ser massiva, a escola está colapsando.

– Quanto de potencial se desperdiça quando não há estímulo necessário?

Mais da metade (para considerar como uma cifra). O coeficiente emocional é mais importante que o intelectual. Se uma criança não é apoiada em sua parte afetiva, ela retém somente 20 porcento dos dados em sala de aula. Quase não vale a pena ensinar.

– A educação alternativa é aplicada em grupos pequenos?

O ideal é ter grupos de oito crianças e dois adultos. Se não é possível, o professor pode dividir a classe em vários gurpos, fazer ilhas com mesas para que trabalhaem em grupo. Me encantaría ver pais que apóiam em turnos, se oferecendo como assistentes.  Há de se pensar que este é um desafio ao qual necessitamos dar uma solução imediata. Buscar ferramentas nas quais as crianças possam canalizar sua tremenda energia e criatividade.

– Um sistema assim é muito difícil de ser implementado massivamente. Há outra alternativa?

Por exemplo, realizar atividades extra escolares ou em contraturno. Basta que uma vez por semana, a criança ou o jóvem tenha um local “seguro emocionalmente” onde possa fazer seu proceso pessoal, recuperar sua autoestima, “conectar-se”. Ou compartilhar técnicas antistress aos professores e aos pais, porque se eles estão bem, as crianças vão estar bem em classe.

– Quais são os resultados a partir do acadêmico?

A criança atendida em todos os níveis de desenvolvimento terá conhecimento, porém será equilibrada como cidadão e como ser humano.

Fonte: La Voz 
Tradução: Glaucia Cerioni
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Expressamos a todos nosso mais profundo agradecimento e reconhecimento.